A ofensiva tarifária do presidente norte-americano Donald Trump atingiu fortemente um dos produtos mais emblemáticos do agronegócio nordestino: a água de coco. Com a imposição de um imposto de importação de 50%, o item — ausente da lista de exceções — a água de coco brasileira corre sério risco de desaparecer das gôndolas dos Estados Unidos, seu principal destino.
A decisão não é um mero ajuste de comércio exterior. Trata-se de um golpe direto em uma cadeia produtiva que movimenta R$ 1,6 bilhão por ano, gera 770 mil empregos diretos e 3,1 milhões indiretos, sustentada por pequenos e médios produtores da agricultura familiar, incluindo comunidades quilombolas, especialmente no Nordeste, responsável por 88% da produção nacional.
Dos Bastidores: Como o Tema Chegou à Agenda Oficial
Até 11 de agosto de 2025, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) não havia sequer considerado a água de coco nas discussões sobre mitigação de impacto.
Isso mudou quando a APROCOCO, representada pelo presidente Reinaldo Ribeiro, e a Frysk Industrial, representada por seu CFO Bruno Furlan, uniram-se e levaram ao gabinete da Secretária Nacional de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, um dossiê detalhado. Nele, apresentaram números relevantes: 95% da água de coco exportada pelo Brasil vai para os EUA — cerca 53 milhões de litros por ano (equivalente a 150 milhões de cocos por ano), com valor de vendas de US$ 53 milhões em 2024 e uma projeção de US$ 68 milhões em 2025.
A secretária, segundo relatos obtidos pela reportagem, reconheceu a gravidade ao saber que o produto está no TOP 3 mais impactados pelo tarifaço e que, sem ação, o mercado exportador poderia colapsar, provocando queda generalizada de preços no mercado interno e perdas estimadas em R$ 250 milhões.
O pleito central da APROCOCO foi a inclusão da água de coco (NCM 2009.89.21) na lista de exceções tarifárias junto ao governo norte-americano. Mas a pauta não parou aí.
A entidade também propôs medidas emergenciais de suporte interno:
- Monetização de créditos tributários federais para aliviar o caixa dos exportadores;
- Aquisição emergencial de excedentes pelo governo;
- Linhas de crédito com juros subsidiados para capital de giro;
- Implementação temporária de cotas de importação de coco ralado, visando absorver parte do coco verde que ficará represado no campo, transformando-o em coco seco maduro e, posteriormente, em coco ralado.
Essa última medida conecta-se a outra reivindicação estratégica: a manutenção incondicional do coco ralado na LETEC (Lista de Exceções à Tarifa Externa Comum do Mercosul). A presença do coco ralado na LETEC permite ao Brasil aplicar alíquotas majoradas de importação, o que mantém a competitividade e evita gargalos no abastecimento industrial. Sua retirada colocaria pressão adicional sobre um mercado já em crise, agravando o represamento da produção e limitando alternativas para escoar a matéria-prima.
O Desafio Competitivo
Enquanto o Brasil enfrenta a tarifa de 50%, concorrentes asiáticos como Filipinas, Tailândia e Indonésia pagam apenas 19% para acessar o mesmo mercado norte-americano. Essa disparidade torna a operação brasileira praticamente inviável. Sem o mercado dos EUA, as indústrias envasadoras tendem a fechar, deixando produtores sem alternativa para vender a produção e colocando milhares de famílias em situação de vulnerabilidade.
A Força da Representação Setorial
A articulação da APROCOCO junto ao MDIC não apenas colocou a água de coco no radar do governo federal, como também abriu caminho para medidas mitigatórias que podem significar a diferença entre colapso e sobrevivência da cadeia. Sem essa representação, o setor do coco correria o risco de ficar à margem das negociações, sem acesso a isenções, benefícios ou soluções emergenciais.
Conclusão: Política Comercial é Questão de Sobrevivência
O episódio revela o quanto decisões de política comercial externa podem definir o futuro de setores inteiros da economia brasileira. No caso da água de coco, a luta não é apenas por competitividade: é pela sobrevivência de uma cadeia que sustenta comunidades inteiras e que, sem articulação e ação imediata, pode ver seu mercado desmoronar.
A próxima etapa depende da capacidade do governo brasileiro de convencer Washington a rever a tarifa — e da manutenção de uma frente unida entre produtores, indústria e representantes institucionais para preservar um patrimônio econômico e social do Brasil, em especial da região Nordeste.
Fonte: APROCOCO BRASIL



